[Mitologia] Mitologia Saint Seiya - Caronte de Aqueronte

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Mensagem por ShiryuFSR em 20.04.14 22:15

Mitologia Saint Seiya - Caronte de Aqueronte

"Essas são pessoas que viveram uma vida sem sentido,
por isso não conseguem ir nem para o Céu nem para o Inferno
depois que morrem.

Ficam às margens deste rio, o Rio Aqueronte,
que fica entre o mundo dos vivos e dos mortos,
apenas lamentando, eternamente!"

Caronte de Aqueronte





Caronte e a Mitologia Grega:

Na mitologia grega, Caronte (Χάρων; Kharon; Charon) é o barqueiro dos rios Estige (Styx) e Aqueronte (Acheron), que dividiam o mundo dos mortos do mundo dos vivos. Caronte é um psicopompo (psyché/alma; pompós/guia), ou seja, um ser cuja responsabilidade é acompanhar as almas dos mortos para a outra vida. O seu papel não é julgar o morto, mas simplesmente fornecer uma passagem segura.

De acordo com a tradição funerária da Grécia Antiga, uma moeda, geralmente um óbolo ou danake, era colocada dentro ou sobre a boca dos cadáveres para que estes pudessem pagar a taxa cobrada por Caronte para a travessia do rio para o mundo dos mortos. Aqueles que não tinham condições de pagar a quantia, ou aqueles cujos corpos não haviam sido sepultados, tinham de vagar pelas margens do rio por cem anos (ou eternamente, de acordo com algumas citações).

Alguns heróis como Héracles, Orfeu, Enéas, Dioniso e Psiquê, conseguiram viajar até o mundo inferior e retornar, ainda vivos, trazidos pela barca de Caronte.


Arrival of Charon (1857), por Gustave Doré


Caronte na Divina Comédia:

O Inferno é a primeira parte da Divina Comédia de Dante Alighieri (sendo as outras duas o Purgatório e o Paraíso) e está dividido em trinta e quatro cantos, sendo o Canto III a travessia pelo Rio Aqueronte por Dante Alighieri, o próprio autor da obra, que personifica O Homem; e Virgílio (autor da Eneida), que é o seu mestre e guia, personificando A Razão.

Este Canto III narra a história dos dois personagens através do Portal do Inferno, do Vestíbulo do Inferno e do Rio Aqueronte.

O Portal do Inferno não tem portas ou cadeados mas somente um aviso sobre a entrada que adverte: uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança de rever o céu pois de lá não se pode voltar. As almas entram porque querem. No poema, o inferno está repleto das almas daqueles que morreram com a determinação de entrar naquele portal; na alegoria, essas almas são a imagem do pecado na pessoa ou na sociedade. A alma só tem poder de escolha enquanto viva, portanto, viva se decide pelo céu ou pelo inferno. Depois de morta, perde a capacidade de raciocinar e tomar decisões. Dante não deve temer, diz Virgílio, porque ele ainda está vivo e ainda tem poder de arbítrio.

O Vestíbulo do Inferno ou Ante Inferno é onde estão os mortos que não podem ir para o céu nem para o inferno. Céu e inferno são estados onde uma escolha é permanentemente recompensada, de forma positiva ou negativa. Deve também existir um estado onde a negação da escolha seja recompensada, uma vez que recusar a escolha é escolher a indecisão. Esse lugar se chama Vestíbulo do Inferno, a morada dos indecisos, covardes e que passaram a vida "em cima do muro". Eles nunca quiseram assumir compromissos, tomar decisões firmes, por acharem que assim perderiam a oportunidade de fazer alguma outra coisa. A sua neutralidade e falta de ação é retribuída na forma de um contrapasso, ou seja, o morto receberá punição de acordo com o pecado cometido, baseado numa justiça do tipo "olho por olho, dente por dente" e agora os covardes são condenados a correr atrás de uma bandeira que corre rapidamente e não vai a lugar algum, enquanto são continuamente torturados pelas picadas de vespas e moscões, enquanto vermes roem suas pernas.

O Rio Aqueronte é o primeiro dos rios do inferno. Como os outros rios do mundo subterrâneo, este também não foi inventado por Dante. É citado nas obras clássicas de mitologia como a Eneida de Virgílio e a Odisséia de Homero.

Como o personagem Dante não está morto, Caronte reconhece que ele não é uma das almas condenadas e então diz a ele que busque o caminho do outro porto, onde um anjo leva as almas que têm esperança para o purgatório. Virgílio força Caronte a levá-lo por meio de um verso famoso: Vuolsi così Colà puote pomba si, o que se traduz em "Assim se quer lá onde o poder reside", referindo-se ao fato de que Dante está em sua jornada por motivos divinos.

Canto III (prosa adaptada por Helder da Rocha):
Canto III
A porta do Inferno - Vestíbulo - Rio Aqueronte - Caronte

Por mim se vai à cidade dolente,
Por mim se vai à eterna dor,
Por mim se vai à perdida gente.

Justiça moveu o meu alto criador,
Que me fez com o divino poder,
O saber supremo e o primeiro amor.

Antes de mim coisa alguma foi criada
Exceto coisas eternas, e eterna eu duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais!

Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:

- Mestre, estas palavras são muito duras.

- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.

Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar confiança, e me guiou na direção daquele sinistro portal.

Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?

- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - me respondeu o mestre. - Se misturam com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o inferno os rejeita.

- Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que lamentem tanto?

- Te direi em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça os ignoram. Deixe-os. Só olha, e passa.

E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam em todo o corpo. O sangue escorria, junto com as lágrimas até os pés, onde vermes doentes ainda os roíam.

Quando olhei além dessa turba, vi uma outra grande multidão que esperava às margens de um grande rio.

- Quem são aqueles? - perguntei ao mestre.

- Tu saberás no seu devido tempo, quando tivermos chegado à orla triste do Aqueronte. - respondeu, secamente.

Temendo ter feito perguntas demais, fiquei calado até chegarmos às margens daquele rio de águas pantanosas e cinzentas.

Chegava um barco dirigido por um velho pálido, branco e de pelos antigos. Ele gritava:

- Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez, pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!

Quando ele me viu, gritou:

- E tu, alma vivente, te afasta desse meio pois aqui só vem morto! - Vendo que eu não me mexia, mais calmo, falou - Tu deves seguir para outro porto, onde um outro barco, maior, te dará transporte.

- Caronte, te irritas em vão! - intercedeu o mestre - Lá, onde se pode o que se quer, isto se quer, e não peças mais nada!

Caronte então se calou, mas pude ver que seus olhos vermelhos ainda ardiam de raiva. As almas, chorando amargamente, se amontoavam na orla e Caronte as embarcava, uma a uma, batendo nelas com o remo quando alguma hesitava. Depois seguiam, quebrando as ondas sujas do rio Aqueronte, e antes de chegarem à outra margem, uma nova multidão já se formava deste lado.

Enquanto Virgílio me falava sobre as almas que atravessavam o rio, houve um grande terremoto, seguido por uma ventania que inundou o céu com um clarão avermelhado. O susto foi tão intenso que eu desmaiei e caí num sono profundo.


Canto III (poema português e original):

1 "Por mim se vai das dores à morada,
2 Por mim se vai ao padecer eterno,
3 Por mim se vai à gente condenada.

4 Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,
5 Formado fui por divinal possança,
6 Sabedoria suma e amor supremo.

7 No existir, ser nenhum a mim se avança,
8 Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!"

10 Estas palavras, em letreiro escuro,
11 Eu vi, por cima de uma porta escrito.
12 "Seu sentido" — disse eu — "Mestre me é duro"

13 Tornou Virgílio, no lugar perito:
14 — "Aqui deixar convém toda suspeita;
15 Todo ignóbil sentir seja proscrito.

16 "Eis a estância, que eu disse, às dores feita,
17 Onde hás de ver atormentada gente,
18 Que da razão à perda está sujeita".

19 Pela mão me travando diligente,
20 Com ledo gesto e coração me erguia,
21 E aos mistérios guiou-me incontinênti.

22 Por esse ar sem estrelas irrompia
23 Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
24 Também meu pranto, de os ouvir, corria.

25 Línguas várias, discursos insofridos,
26 Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,
27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos,

28 Nesses ares, pra sempre enevoados,
29 Retumbavam girando e semilhando
30 Areais por tufão atormentados.

31 A mente aquele horror me perturbando,
32 Disse a Virgílio: — "Ó Mestre, que ouço agora?
33 "Quem são esses, que a dor está prostrando?" —

34 "Deste mísero modo" — tornou — "chora
35 Quem viveu sem jamais ter merecido
36 Nem louvor, nem censura infamadora."

37 "De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
38 Que rebeldes a Deus não se mostraram,
39 Nem fiéis, por si sós havendo sido".

40 "Desdouro aos céus, os céus os desterraram;
41 Nem o profundo inferno os recebera,
42 De os ter consigo os maus se gloriaram".

43 — "Que dor tão viva deles se apodera,
44 Que aos carpidos motivo dá tão forte?" —
45 "Serei breve em dizer-to" — me assevera. —

46 "Não lhes é dado nunca esperar morte;
47 É tão vil seu viver nessa desgraça,
48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.

49 "No mundo o nome seu não deixou traça;
50 A Clemência, a Justiça os desdenharam.
51 Mais deles não falemos: olha e passa".

52 Bandeira então meus olhos divisaram,
53 Que, a tremular, tão rápida corria,
54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.

55 E após, tão basta multidão seguia,
56 Que, destruído houvesse tanta gente
57 A morte, acreditado eu não teria.

58 Alguns já distinguira: eis, de repente,
59 Olhando, a sombra conheci daquele
60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.

61 Soube logo, o que ao certo me revele,
62 Que era a seita das almas aviltadas,
63 Que os maus odeiam e que Deus repele.

64 Nunca tiveram vida as desgraçadas;
65 Sempre, nuas estando, as torturavam
66 De vespas e tavões as ferroadas.

67 Os rostos seus as lágrimas regavam,
68 Misturadas de sangue: aos pés caindo,
69 A imundos vermes o repasto davam.

70 De um largo rio à margem dirigindo
71 A vista, de almas divisei cardume.
72 — "Mestre, declara, aos rogos me anuindo,

73 "Que turba é essa" — eu disse — "e qual costume
74 Tanto a passar a torna pressurosa,
75 Se bem discirno ao duvidoso lume?" —

76 Tornou-me: — "Explicação minuciosa
77 Darei, quando tivermos atingido
78 Do Aqueronte a ribeira temerosa".

79 Então, baixos os olhos e corrido
80 Fui, de importuno a culpa receando,
81 Té o rio, em silêncio recolhido.

82 Eis vejo a nós em barca se acercando,
83 De cãs coberto um velho — "Ó condenados,
84 Ai de vós!" — alta grita levantando.

85 "O céu nunca vereis, desesperados:
86 Por mim à treva eterna, na outra riva,
87 Sereis ao fogo, ao gelo transportados".

88 "E tu que estás aqui, ó alma viva,
89 De entre estes que são mortos, já te ausenta!"
90 Como não lhe obedeço à voz esquiva,

91 "Por outra via irás" — ele acrescenta —
92 "Ao porto, onde acharás fácil transporte;
93 Lá passarás sem barca menos lenta". —

94 "Não te agastes, Caronte! Desta sorte
95 Se quer lá onde" — disse-lhe o meu Guia —
96 "Quem pode ordena. E nada mais te importe".

97 Sereno, ouvido, o gesto se fazia
98 Da lívida lagoa ao nauta idoso,
99 Quem em círculos de fogo olhos volvia.

100 As desnudadas almas doloroso
101 O gesto descorou; dentes rangeram
102 Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso.

103 Blasfemaram de Deus e maldisseram
104 A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem
105 Da origem sua, os pais de quem nasceram.

106 Todas no pranto acerbo, em que se afligem,
107 Se acolhem juntas ao lugar tremendo,
108 Dos maus destinos, que se não corrigem.

109 Caronte, os ígneos olhos revolvendo,
110 Lhes acenava e a todos recebia:
111 Remo em punho, as tardias vai batendo.

112 Como no outono a rama principia
113 As flores a perder té ser despida,
114 Dando à terra o que à terra pertencia,

115 Assim de Adam a prole pervertida,
116 Da praia um após outro se enviavam,
117 Qual ave dos reclamos atraída.

118 Sobre as túrbidas águas navegavam;
119 E pojado não tinham no outro lado,
120 Mais turbas já no oposto se apinhavam.

121 "Aqui meu filho" — disse o Mestre amado —
122 "concorrem quantos há colhido a morte,
123 De toda a terra, tendo a Deus irado".

124 "O rio prontos buscam desta sorte,
125 De Deus tanto a justiça os punge e excita,
126 Tornando-se o temor anelo forte!"

127 "Alma inocente aqui jamais transita,
128 E, se Caronte contra ti se assanha,
129 Patente a causa está, que tanto o irrita".

130 Assim falava; a lúrida campanha
131 Tremeu e foi tão forte o movimento,
132 Que do medo o suor ainda me banha.

133 Da terra lacrimosa rompeu vento,
134 Que um clarão respirou avermelhado;
135 Tolhido então de todo o sentimento,

136 Caí, qual homem que é do sono entrado.
1 Per me si va ne la città dolente,
2 per me si va ne l'etterno dolore,
3 per me si va tra la perduta gente.

4 Giustizia mosse il mio alto fattore:
5 fecemi la divina podestate,
6 la somma sapienza e 'l primo amore.

7 Dinanzi a me non fuor cose create
8 se non etterne, e io etterno duro.
9 Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate".

10 Queste parole di colore oscuro
11 vid'io scritte al sommo d'una porta;
12 per ch'io: «Maestro, il senso lor m'è duro».

13 Ed elli a me, come persona accorta:
14 «Qui si convien lasciare ogne sospetto;
15 ogne viltà convien che qui sia morta.

16 Noi siam venuti al loco ov'i' t'ho detto
17 che tu vedrai le genti dolorose
18 c'hanno perduto il ben de l'intelletto».

19 E poi che la sua mano a la mia puose
20 con lieto volto, ond'io mi confortai,
21 mi mise dentro a le segrete cose.

22 Quivi sospiri, pianti e alti guai
23 risonavan per l'aere sanza stelle,
24 per ch'io al cominciar ne lagrimai.

25 Diverse lingue, orribili favelle,
26 parole di dolore, accenti d'ira,
27 voci alte e fioche, e suon di man con elle

28 facevano un tumulto, il qual s'aggira
29 sempre in quell'aura sanza tempo tinta,
30 come la rena quando turbo spira.

31 E io ch'avea d'error la testa cinta,
32 dissi: «Maestro, che è quel ch'i' odo?
33 e che gent'è che par nel duol sì vinta?».

34 Ed elli a me: «Questo misero modo
35 tegnon l'anime triste di coloro
36 che visser sanza 'nfamia e sanza lodo.

37 Mischiate sono a quel cattivo coro
38 de li angeli che non furon ribelli
39 né fur fedeli a Dio, ma per sé fuoro.

40 Caccianli i ciel per non esser men belli,
41 né lo profondo inferno li riceve,
42 ch'alcuna gloria i rei avrebber d'elli».

43 E io: «Maestro, che è tanto greve
44 a lor, che lamentar li fa sì forte?».
45 Rispuose: «Dicerolti molto breve.

46 Questi non hanno speranza di morte
47 e la lor cieca vita è tanto bassa,
48 che 'nvidiosi son d'ogne altra sorte.

49 Fama di loro il mondo esser non lassa;
50 misericordia e giustizia li sdegna:
51 non ragioniam di lor, ma guarda e passa».

52 E io, che riguardai, vidi una 'nsegna
53 che girando correva tanto ratta,
54 che d'ogne posa mi parea indegna;

55 e dietro le venìa sì lunga tratta
56 di gente, ch'i' non averei creduto
57 che morte tanta n'avesse disfatta.

58 Poscia ch'io v'ebbi alcun riconosciuto,
59 vidi e conobbi l'ombra di colui
60 che fece per viltade il gran rifiuto.

61 Incontanente intesi e certo fui
62 che questa era la setta d'i cattivi,
63 a Dio spiacenti e a' nemici sui.

64 Questi sciaurati, che mai non fur vivi,
65 erano ignudi e stimolati molto
66 da mosconi e da vespe ch'eran ivi.

67 Elle rigavan lor di sangue il volto,
68 che, mischiato di lagrime, a' lor piedi
69 da fastidiosi vermi era ricolto.

70 E poi ch'a riguardar oltre mi diedi,
71 vidi genti a la riva d'un gran fiume;
72 per ch'io dissi: «Maestro, or mi concedi

73 ch'i' sappia quali sono, e qual costume
74 le fa di trapassar parer sì pronte,
75 com'io discerno per lo fioco lume».

76 Ed elli a me: «Le cose ti fier conte
77 quando noi fermerem li nostri passi
78 su la trista riviera d'Acheronte».

79 Allor con li occhi vergognosi e bassi,
80 temendo no 'l mio dir li fosse grave,
81 infino al fiume del parlar mi trassi.

82 Ed ecco verso noi venir per nave
83 un vecchio, bianco per antico pelo,
84 gridando: «Guai a voi, anime prave!

85 Non isperate mai veder lo cielo:
86 i' vegno per menarvi a l'altra riva
87 ne le tenebre etterne, in caldo e 'n gelo.

88 E tu che se' costì, anima viva,
89 pàrtiti da cotesti che son morti».
90 Ma poi che vide ch'io non mi partiva,

91 disse: «Per altra via, per altri porti
92 verrai a piaggia, non qui, per passare:
93 più lieve legno convien che ti porti».

94 E 'l duca lui: «Caron, non ti crucciare:
95 vuolsi così colà dove si puote
96 ciò che si vuole, e più non dimandare».

97 Quinci fuor quete le lanose gote
98 al nocchier de la livida palude,
99 che 'ntorno a li occhi avea di fiamme rote.

100 Ma quell'anime, ch'eran lasse e nude,
101 cangiar colore e dibattero i denti,
102 ratto che 'nteser le parole crude.

103 Bestemmiavano Dio e lor parenti,
104 l'umana spezie e 'l loco e 'l tempo e 'l seme
105 di lor semenza e di lor nascimenti.

106 Poi si ritrasser tutte quante insieme,
107 forte piangendo, a la riva malvagia
108 ch'attende ciascun uom che Dio non teme.

109 Caron dimonio, con occhi di bragia,
110 loro accennando, tutte le raccoglie;
111 batte col remo qualunque s'adagia.

112 Come d'autunno si levan le foglie
113 l'una appresso de l'altra, fin che 'l ramo
114 vede a la terra tutte le sue spoglie,

115 similemente il mal seme d'Adamo
116 gittansi di quel lito ad una ad una,
117 per cenni come augel per suo richiamo.

118 Così sen vanno su per l'onda bruna,
119 e avanti che sien di là discese,
120 anche di qua nuova schiera s'auna.

121 «Figliuol mio», disse 'l maestro cortese,
122 «quelli che muoion ne l'ira di Dio
123 tutti convegnon qui d'ogne paese:

124 e pronti sono a trapassar lo rio,
125 ché la divina giustizia li sprona,
126 sì che la tema si volve in disio.

127 Quinci non passa mai anima buona;
128 e però, se Caron di te si lagna,
129 ben puoi sapere omai che 'l suo dir suona».

130 Finito questo, la buia campagna
131 tremò sì forte, che de lo spavento
132 la mente di sudore ancor mi bagna.

133 La terra lagrimosa diede vento,
134 che balenò una luce vermiglia
135 la qual mi vinse ciascun sentimento;

136 e caddi come l'uom cui sonno piglia.


Caronte em Saint Seiya:

O personagem Caronte de Aqueronte recebe destaque no primeiro episódio da Saga de Hades Fase Inferno (Episódio 128 - "Atravessem! O Rio Aqueronte"), no qual Seiya de Pegasus e Shun de Andrômeda iniciam a caminhada para levar a armadura para a Deusa Athena no submundo. Percorrem o Portal do Inferno, o Vestíbulo do Inferno (região entre o Portal e o Rio) e o Rio Aqueronte. Durante este curto percurso é possível ver várias referências ligadas à Mitologia Grega e ao poema Divina Comédia de Dante Alighieri, escrita entre 1308 e 1321.

Deixo abaixo um comparativo entre algumas possíveis referências usadas por Masami Kurumada nesse episódio 128:

Cena 1

Saint Seiya - Seiya e Shun se deparam com o Portal do Inferno, quando Seiya interroga o que seria aquele portal. Shun responde:

"Já ouvi falar nele,
é a entrada para o mundo dos mortos.
Ele é chamado de Portal do Inferno.

Tem alguma coisa escrita nele:
Aqueles que aqui entrarem devem perder toda a esperança!

Seiya, mas que palavras mais cruéis,
para aquelas pessoas que já perderam tudo na vida,
a única coisa que ainda resta é a esperança.
E ainda querem que a perca?"


Como resposta ouve de Seiya:

"Não precisamos fazer isso,
afinal Shun, somos os Cavaleiros da Esperança,
não é mesmo?"


Em seguida os dois caminham em direção ao Rio Aqueronte.


Portal do Inferno em Saint Seiya

Divina Comédia - Na obra de Dante, o próprio Dante observa a inscrição no Portal, que é um pouco mais longa que em Saint Seiya, e em seguida faz um comentário semelhante ao feito por Shun, sobre o impacto que aquelas palavras causaram. Versos 1 a 9 - inscrição do Portal; 10 a 12 - observação feita por Dante; 13 a 21 - resposta do mestre Virgílio:

1 "Por mim se vai das dores à morada,
2 Por mim se vai ao padecer eterno,
3 Por mim se vai à gente condenada.

4 Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,
5 Formado fui por divinal possança,
6 Sabedoria suma e amor supremo.

7 No existir, ser nenhum a mim se avança,
8 Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!"

10 Estas palavras, em letreiro escuro,
11 Eu vi, por cima de uma porta escrito.
12 "Seu sentido" — disse eu — "Mestre me é duro".


Nos versos seguintes Dante recebe apoio de Virgílio e os dois caminham em direção ao Rio Aqueronte.


Inscrição no Portal do Inferno, na pintura de Gustave Doré

Cena 2

Saint Seiya - Às margens do Rio Aqueronte, Seiya observa várias pessoas lamentando e indaga quem seriam eles, quando do rio surge Caronte em sua barca e explica que são aqueles que não fizeram nada durante a vida:

"O que são essas pessoas, o que elas tanto lamentam?"

"Essas são pessoas que viveram uma vida sem sentido,
Por isso não conseguem ir nem para o Céu nem para o Inferno
depois que morrem.

Ficam às margens deste rio, o Rio Aqueronte
que fica entre o mundo dos vivos e dos mortos,
apenas lamentando, eternamente!"



Vestíbulo do Inferno em Saint Seiya

Divina Comédia - Essa cena é descrita nos versos 22 a 51, onde Dante ouve gritos, suspiros, lamentos intensos em várias línguas que formavam um tumulto e tinham um som de uma ventania; em seguida pergunta quem eram aquelas pessoas que sofriam tanto:

31 A mente aquele horror me perturbando,
32 Disse a Virgílio: — "Ó Mestre, que ouço agora?"
33 "Quem são esses, que a dor está prostrando?" —


Virgílio o responde:

34 "Deste mísero modo" — tornou — "chora
35 Quem viveu sem jamais ter merecido
36 Nem louvor, nem censura infamadora."

37 "De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
38 Que rebeldes a Deus não se mostraram,
39 Nem fiéis, por si sós havendo sido."

40 "Desdouro aos céus, os céus os desterraram;
41 Nem o profundo inferno os recebera,
42 De os ter consigo os maus se gloriaram."


E complementa nos versos seguintes: estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação, o mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça os ignoram.

Cena 3

Saint Seiya - Ao perceber que os dois Cavaleiros de Bronze estão vivos e que fazem parte dos que invadiram o submundo, Caronte nega a travessia:

"O quê, vocês estão vivos?"

Em seguida Caronte descobre quem são os Cavaleiros e diz que não permitirá que eles atravessem o Rio Aqueronte.

Divina Comédia - Na Comédia, apenas o Dante chega ao Inferno vivo. Caronte pede para que ele se retire daquele local onde só as almas seriam transportadas e que busque um outro porto, não mencionado em Saint Seiya, que seria o adequado para ele.

88 "E tu que estás aqui, ó alma viva,
89 De entre estes que são mortos, já te ausenta!"
90 Como não lhe obedeço à voz esquiva,

91 "Por outra via irás" — ele acrescenta —
92 "Ao porto, onde acharás fácil transporte;
93 Lá passarás sem barca menos lenta". —


Cena 4

Saint Seiya - Após insistirem na travessia do Rio Aqueronte, Caronte acaba cedendo, mas com uma condição:

"Se querem tanto assim atravessar,
eu posso levá-los de barco.

A propósito, algum de vocês teria algum dinheiro?
Os mortos que atravessam para o outro lado do rio devem me pagar pela travessia,
vocês sabiam?"



Moedas (óbolos) recebidas por Caronte

Mitologia Grega - Como já explicado, era necessário pagar o óbolo para o Caronte, caso contrário, ficariam vagando às margens do Rio Aqueronte.


Charon and Psyche (1883), por John Roddam Spencer Stanhope

Cena 5

Saint Seiya - Uma das várias brigas entre Seiya e Caronte termina com o Cavaleiro de Bronze desmaiado no barco após ser atingido pelo golpe Redemoinho Esmagador (Ending Current Crusher), um ataque no qual é disparado um poder avermelhado/roxo no adversário, que é arremessado para o alto ao som de um turbilhão. Esta pode ser uma referência aos últimos versos do Canto III.


Ending Current Crusher

Divina Comédia - Enquanto Virgílio falava sobre as almas que atravessavam o rio, houve um grande terremoto, seguido por uma ventania que inundou o céu com um clarão avermelhado. O susto foi tão intenso que Dante desmaiou e caiu num sono profundo:

133 Da terra lacrimosa rompeu vento,
134 Que um clarão respirou avermelhado;
135 Tolhido então de todo o sentimento,

136 Caí, qual homem que é do sono entrado.


Cena 6

Saint Seiya - No anime os olhos, pelo menos da armadura, de Caronte são vermelhos.



"Olhos" vermelhos da armadura de Caronte

Mitologia Grega - Dante descreve os olhos do Caronte (versos 97-99) como sendo "rodas em chamas". Descrição semelhante é encontrada na obra do próprio Virgílio, que compara os olhos a "fornalhas em chamas":

97 Sereno, ouvido, o gesto se fazia
98 Da lívida lagoa ao nauta idoso,
99 Quem em círculos de fogo olhos volvia.

There Chairon stands, who rules the dreary coast -
A sordid god: down from his hairy chin
A length of beard descends, uncombed, unclean;
His eyes, like hollow furnaces on fire;
A girdle, foul with grease, binds his obscene attire


Cena 7

Saint Seiya - Há várias pinturas que abordam o personagem, o barco e o remo de diversas formas. Mas em uma delas há uma grande semelhança no remo utilizado por Caronte em Saint Seiya:


Detalhe do remo do Caronte

Divina Comédia - Pintura de Gustave Doré, de 1857, inspirada na obra de Dante:


Charon herds the sinners onto his boat, taking them to be judged
(1857), por Gustave Doré



Referências:
Saint Seiya episódio 128 - Atravessem! O Rio Aqueronte
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/inferno.html
http://www.stelle.com.br/pt/inferno/canto_3.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Gustave_Dor%C3%A9
http://en.wikipedia.org/wiki/Psychopomp
http://en.wikipedia.org/wiki/Charon_%28mythology%29
http://en.wikipedia.org/wiki/Charon%27s_obol
http://en.wikipedia.org/wiki/Virgil
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